Pomerode
O ano inteiro

Uma vida de Luz

Terça-Feira, 08 de Setembro - Há no olhar de Dagmar Guenther uma serena bondade que nos ilumina o coração ao primeiro contato. Como se as velas a que dedica a sua vida a iluminassem interiormente irradiando uma espécie de luz melancólica que se vai consumindo lentamente em pequenas lágrimas. Pelo menos, assim o imagino.

A Dag, como é mais conhecida, ama velas desde criança e depois de muitas idas de vindas da vida, passou a dedicar-se exclusivamente a elas, criando um pequeno enorme mundo de sonho, talhado em parafina. As suas velas são obras de arte. “Daquelas que até dá pena acender”, como lhe dizem tantos dos curiosos visitantes que procuram a sua casa em Pomerode, bem na frente da Casa do Imigrante.

- Que pena! As minhas velas são feitas para ganhar vida com a luz que dão, não para servirem de adereço num canto de sala. É a luz que irradiam quando as acendemos que as transformam em objetos verdadeiramente belos.

- Sabe, isto é um Dom Divino, porque desde criança sempre gostei de velas decorativas. Via-as em revistas alemãs que tinha lá por casa. Os meus pais tinham um açougue e o sebo era vendido para Joinville para uma fábrica de velas e eu pensando, um dia vou fazer! Um dia vou fazer! – Dag vai relaxando ao ritmo da história da sua vida, derretendo o gelo inicial com o calor da luz da sua paixão.

- Aí esta vontade foi ganhando consistência. Tinha um irmão que trabalhava em São Paulo, na Volskwagen e queria regressar e eu sugeri que nos dedicássemos às velas. Ele tinha um monte de fórmulas que deixou dentro do carro e foi ao mercado.
Quando regressou, tinham roubado o carro, as fórmulas, tudo! Ele desanimou e acabou ficando na Volkswagen. Eu continuei determinada: eu vou fazer, eu vou fazer… – Risos.

- Um dia, o meu irmão me ligou para dizer que o pai de um colega do meu sobrinho tinha uma fábrica de velas em São Paulo e estava disposto a receber-me. Parti nesta mesma noite para a capital paulista. Ia cheia de expectativa. Imaginava uma grande fábrica, com cem funcionários, toda equipada. Quando cheguei, era um quartinho com cinco máquinas lá dentro. A verdade é que era uma baita fábrica. Eu pensei: isso eu também posso!

Em toda a conversa, impressiona, acima de tudo, a determinação de Dagmar. A certeza do que pretendia para a sua vida e a noção exata do dom que reconhecia no seu íntimo foram sempre os fatores impulsionadores da sua perseverança. – “Eu vou fazer, eu vou fazer, eu vou fazer…”

– Nessa fábrica, comprei a primeira máquina. Servia apenas para fazer velas tradicionais, que não era o que pretendia, mas tinha de começar de alguma forma. Isto em 1984. Depois acabei vendendo a máquina. Comecei a fazer uma a uma, inspirando-me nas velas que vira nas revistas de infância e em outras que imaginava. E fui fazendo, fazendo, até hoje, em que tudo está do jeito que eu queria. Pelo caminho, estudei muito, fiz muita pesquisa, visitei uma fábrica na Alemanha mais vocacionada para velas religiosas, mas onde aprendi as técnicas das velas decorativas e desde aí percebi que o meu caminho teria de ser totalmente artesanal.

É este cariz absolutamente genuíno que faz da Guenther Velas uma empresa especial. Cada peça é pensada, desenhada, moldada e decorada por Dag e pelo marido, que, entretanto, se apaixonou com ela pelo mundo mágico da parafina trabalhada.

– Para mim, tudo vira vela! – Afirma com um sorriso aberto e contagiante. – Tudo é fonte de inspiração para novos moldes e novas decorações. Mas, o importante é o acabamento. Aí é que nós damos vida às peças. É no acabamento que colocamos a nossa inspiração.

Revista Valeu – Quantas pessoas trabalham consigo?
Dagmar Guenther – É a família. Eu, o meu marido e a enteada.

Ele se apaixonou por esta arte e tem muita imaginação. Nós nos realizamos no amor que colocamos no nosso trabalho.
A loja/casa de Dag é já uma referência turística da região. É aqui, em Pomerode Fundos, numa das mais belas estradas da região, em meio a um mar de verde rasgado pelo asfalto e decorado em ambos os lados por casas em estilo enxaimel e pequenos sítios cuidadosamente cultivados, que a Guenther Velas vende a maior parte da sua produção artesanal. Consciente da necessidade de se adaptar às exigências da modernidade, também tem um site de venda online e página no Facebook, mas Dag gosta mesmo é de receber os turistas que chegam diariamente recomendados por amigos ou pelos roteiros turísticos da região.

Com um ligeiro sorriso de embaraço, Dag afirma: – Tem gente que chega e diz que diversos familiares e amigos aconselharam a visita a sua casa alertando que não visitar a Guenther Velas é não conhecer Pomerode. – Orgulho estampado no rosto sereno.

Revista Valeu – Sendo a sua empresa uma das mais reconhecidas da cidade, tem sentido apoio dos diversos organismos públicos, no sentido de auxiliar na divulgação do seu trabalho?
Dagmar Guenther – Fazemos parte dos roteiros turísticos da cidade e somos convidados para diversos eventos culturais. Para estarmos presentes. Por exemplo, no Festival Gastronômico. Estamos juntamente com a Feira do Artesanato. Pagando, claro!!!!
Mas, a gente já se contenta com isso. – Afirma resignada. – A AVIP, da qual fazemos parte, tem feito um ótimo trabalho de divulgação turística e de dinamização da cidade. Melhorou muito.

Sabe, se você quer resultados tem de tomar frente. Foi o que se fez aqui. Os empresários ligados ao turismo se uniram e tomaram frente. Decidiram meter mãos à obra e dinamizar o turismo e o artesanato, locais. E com ótimos resultados.

A conversa decorre numa sala interior do espaço comercial que Dag reserva para a venda do seu trabalho artesanal. Os temas natalícios dominam o espaço. Um pouco por todo o lado, velas de diversas dimensões e formatos, reportam-nos para a infância e para natais em família. Há neste recanto interior da loja, uma aura familiar, intimista, acolhedora. Anjos de parafina olham-nos de soslaio, dependurados numa árvore decorada com velas em formato de estrelas e pinhas.

O verde e rubro predominam, por entre apontamentos de dourado e prata. Apetece sentarmo-nos à mesa, acender as velas, tomar um vinho e ouvir Sinatra cantando “Let it snow”.

Dag lê-nos o pensamento e anuncia para o fim do ano a abertura de uma nova sala dedicada em permanência ao Natal e à Páscoa, as épocas do ano em que as vendas disparam e a dedicação de meses e meses acaba por ser compensada financeiramente.

Revista Valeu – Quantas velas faz por ano?
Dagmar Guenther – Não faço ideia. – Risos – A gente faz, faz, faz, mas não sei quantas. Todo o dia a gente faz velas. E novidades todo o ano. Tem de ter. Sabe uma coisa, muitas pessoas compram velas para decorar. Não as acendem. Não usam. É cultural, eu acho.

Revista Valeu – O ato de acender uma vela tem uma implicação na vida das pessoas?
Dagmar Guenther – Sim! Sim!
Revista Valeu – Qual é essa implicação?
Dagmar Guenther – Dá uma paz tão grande. Uma tranquilidade tão grande. – Longa pausa reflexiva, como que imaginando esse momento tão especial de dar vida ao seu trabalho. – Por exemplo, eu acendo uma vela para tomar o meu café e nossa, flui tanta coisa boa na gente que nem sei explicar. É um ritual tão bom, tão bonito…

Um grupo de cicloturistas acaba de estacionar as suas bikes em frente à loja e olha a vitrine. Dag apronta-se para regressar à sua paixão de mostrar aos outros a sua arte.

Despedimo-nos na soleira da porta sob um ofuscante sol de inverno que inunda o Vale.

– Obrigado, Dag! E que as velas continuem a iluminar o seu caminho.

por João Moreira.

Fonte: Revista Valeu

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